[Crítica] – Esse paraíso da tristeza, de Sébastien Lapaque

Stefan Zweig, um austríaco judeu, e Georges Bernanos, um francês católico, ambos exilados no Brasil e atormentados pela expansão nazista na Europa se encontram na cidade de Barbacena, no Rio de Janeiro, às vésperas do que viria a ser o suicídio de Zweig.

Em Esse paraíso da tristeza, Sébastien Lapaque, que conhece profundamente a obra de Zweig e Bernanos, consegue criar uma sutil atmosfera de despedida marcada pelo esforço sincero de compreensão de dois amigos que viram e sofreram com os horrores da Primeira e da Segunda Guerra Mundial.

Longe de representar o retrato fiel de um encontro historicamente registrado, o diálogo se propõe a contrapor visões de mundo a partir de uma catástrofe em comum – a ascensão do nazismo – que faz aflorar em Zweig e em Bernanos as doloridas lembranças da imigração forçada, as saudades dos tempos de liberdade entre amigos e as incertezas do futuro em terras estrangeiras. Incertezas que despertam em Zweig o sentimento de profunda angustia – também experimentado por Bernanos – que o impede, entretanto, de enxergar uma saída ao exílio de alma que enfrenta.

Bernanos, por outro lado, entendendo ser a fé uma gota de esperança num oceano de dúvida, vê-se obrigado a apostar na vitória (não apenas no contexto de guerra, mas no resgate divino da humanidade), acreditando na necessidade de continuar o trabalho de escritor, ainda possível no Brasil a despeito do regime político ditatorial dos anos 30 e 40 no país.

Repleta de belas referências à vida e à obra de ambos os escritores, o diálogo construído por Lapaque ultrapassa noções de uma visão de mundo simplista – e maniqueísta – em que ou se é otimista ou se é pessimista diante dos fatos descritos, justamente porque parte da premissa de que tudo é graça, embora a forma de lidar com ela seja bastante distinta nesse diálogo.

A noção de graça está presente nas escrituras sagradas antes mesmo do advento do cristianismo, e consiste na ideia de que tudo que existe, existe por misericórdia de Deus. A graça divina, assim, está diretamente relacionada à expressão do amor de Deus por sua criação, um amor que advém de fora do mundo e antes do mundo, como observa Hannah Arendt[1] interpretando os escritos de Santo Agostinho, e por meio do qual o homem compreende que não pertence ao mundo, e sim à Deus.

No diálogo de Lapaque o Eterno se faz presente na vida dos interlocutores a todo tempo, a despeito das diferenças de convicções religiosas e da descrença enfrentada por Zweig. Dessa forma, o leitor é pouco a pouco conduzido a refletir acerca da própria natureza do salto de fé capaz de salvar Bernanos do desespero e do suicídio, e a perguntar-se – por que não – se Zweig escolheu o desespero ou simplesmente não pôde escapar a ele.

A fluidez da escrita de Lapaque proporciona rapidez de leitura sem eclipsar o exercício de reflexões de elevado teor filosófico, especialmente diante do final trágico da vida de Zweig, o que nos leva a concluir que nem mesmo o Brasil, a terra dos bloquinhos de carnaval, escape ao destino de se tornar um paraíso da tristeza.

Eliza Penna


Ficha técnica da obra:

Esse paraíso da tristeza – Stefan Zweig e Georges Bernanos – Brasil, 1942

Autor: Sébastien Lapaque,

Trad. Roberto Mallet

São Paulo: É Realizações, 2018

[1] O conceito de amor em Santo Agostinho. Lisboa: Ed. Instituto Piaget, s/d.