[Crítica] – Letters to dead authors, de Andrew Lang

E se fosse possível escrever cartas aos nossos autores favoritos, e falecidos, na expectativa de que fossem lidas e respondidas?

A possibilidade de dizer pessoalmente algo do tipo “obrigada, Machado!” é encantadora e já foi utilizada como recurso linguístico por autores nacionais e estrangeiros para expressar admiração por aqueles que, há muito, pensaram a alma humana e plasmaram em seus escritos, para além do tempo, ideias e percepções capazes de mudar a existência do leitor.

A obra Letters to dead authors, de Andrew Lang, publicada pela primeira vez em 1886, foi construída justamente sobre a ideia de escrever cartas a autores póstumos que marcaram a vida de Lang. São vinte e duas cartas reunidas nessa coletânea ainda não traduzida para a língua portuguesa, em que Lang se direciona a autores como Alexandre Dumas, Edgar Allan Poe, Lord Byron e Jane Austen para expressar – em tom afetuoso, e ligeiramente melancólico – como a sociedade inglesa no final do século XIX se relaciona com seus escritos, além do impacto que tiveram na jornada de formação do próprio Lang como escritor.

Lang, que era escocês, faleceu em julho de 1912, deixando uma vasta produção literária pela qual ainda é reconhecido, em especial a coleção de doze livros coloridos que reúne histórias e contos de fada de todo o mundo, adaptados para uma prosa fluída, marca de seu estilo literário. Tal coleção, que vem sendo traduzida e publicada pouco a pouco no Brasil, além de ter sido elogiada por nomes como G.K.Chesterton, faz publicações menores como Letters to dead authors passar despercebida ao olhar do leitor desatento. Letters, entretanto, carrega consigo o mesmo estilo de escrita palatável de Lang e provoca o leitor a refinar a curiosidade sobre as obras de literatura clássica que cita, residindo aí seu grande valor.

Uma das cartas que mais chama atenção é aquela direcionada a Charles Dickens em que Lang, sem se deixar levar pelo pieguismo de abstrações vazias, revela o que pensa da influência da obra de Dickens sobre os ingleses.  A primeira linha da carta tem início com a seguinte reflexão: “Senhor, – Afirmou-se que todo homem nasce platonista ou aristotélico, embora a boa maioria das pessoas, com certeza, vivam e morram sem ter consciência de qualquer parcialidade filosófica insidiosa”.

A sutil ironia plasmada no excerto dá o tom de toda a carta. Tanto é que, em outra passagem, depois de registrar que o humor era uma qualidade deplorável na Inglaterra do final do século XIX, Lang elogia o senso de humor de Dickens afirmando que todo tipo de dano se passou aos ingleses desde que o escritor faleceu: “It naturally follows that, in a length almost destitute of humour, many respectable persons ‘cannot read Dickens,’ and are not ashamed to glory of their shame.”.

Observador da sociedade de sua época, Lang nota o quão singular é a historia do declínio do humor enquanto recurso literário que faz rir ao mesmo tempo em que conduz o homem à reflexão, como nos Cadernos de Pickwick, de Dickens. Aliás, para além de recurso literário, o humor a que Lang se refere e lamenta a perda é o traço marcante de inteligência e perspicácia do povo inglês, traço esse que marca, inclusive, o surgimento de Monty Phyton, já no século XX.

Quanto a Dickens, é preciso reconhecer que o Brasil não tem muitos leitores de sua obra, um infortúnio que não se pode atribuir exclusivamente às poucas traduções existentes. Há algo em Dickens que não agrada o temperamento do brasileiro, e há quem diga que é justamente seu estilo de humor, o que nos conduz a uma triste conclusão: ou não entendemos a piada, ou não gostamos dela.

O consolo para os que ainda se aventuram a ler as obras de Dickens talvez resida nas palavras do próprio Lang ao final de sua carta: “For each Englishman who can read, until he be an Ass, is a reader the more for you.”

Eliza Penna


Ficha técnica:

Lang, Andrew. Letters to Dead Authors . Edição do Kindle