[Crítica] – Queria mais é que chovesse, de Pedro Mexia

Pedro Mexia é renomado escritor das terras de além-mar, descoberto por acaso quando se procuravam livros de Agustina Bessa-Luís. Queria mais é que chovesse é apenas uma das coletâneas de crônicas recheadas de pessimismo e ironia publicadas no Brasil pela editora carioca Tinta da China, em 2015.

Como cronista, Mexia entrega ao leitor uma coleção de engraçadas – e desgraçadas – memórias, uma porção de conceitos bem vividos (nem sempre por ele mesmo) e outra de timidez e ceticismo. Além de piadas que nascem propriamente de suas características físicas, como a careca, a barriga e a altura, que servem de apoio cômico ao cerne da questão humana suscitada em cada pequeno texto desta coletânea, Pedro Mexia faz com que cada riso venha acompanhado de uma melancolia muito própria da reflexão sobre a vida comum.

Suas críticas, entretanto, não tornam a obra pesada nem disfarçam o que parece ser a intenção primordial do autor nesta obra: rir do lado ridículo da humanidade e das pequenezas às quais nos apegamos cotidianamente em busca de admiração e reconhecimento público.

Mexia é um gigante de olhar profundo. Fisicamente e na literatura. Escreve com a certeza de que não se deixa marca no mundo, a não ser descendentes, aos quais a natureza nos convoca a ter. Isto, entretanto, representa apenas meia verdade para quem entra em contato com os escritos do ilustre português: por um lado,  Queria mais é que chovesse é uma coletânea de crônicas que marca qualquer tarde chuvosa com boas risadas, por outro, nem descendentes vivem para sempre para serem considerados “marcas no mundo”.

Ciente de que vivemos numa época de cinismo sem precedentes, Mexia não se entrega à pieguice de falar de valores perdidos, como menciona na crônica As boas pessoas, mas constrói suas ideias tendo como ponto de partida uma vida que se depara muitas vezes com a extravagância alheia. Sua neutralidade de olhar é própria de quem se sabe transitório e, em inúmeros momentos, apenas ridículo. Mas não se deixe enganar pelo autor tão facilmente, alerta ele na contracapa da obra: “algumas dessas crônicas sobre mim, não são de fato sobre mim. Se fossem, certamente não interessavam a ninguém”.

Eliza Penna


Ficha técnica:

Queria mais é que chovesse

Autor: Pedro Mexia

Rio de Janeiro: Tinta da China, 2015.

190 p.