[Tradução] – On human nature, de Roger Scruton

Neste belíssimo ensaio de apenas quatro capítulos, publicado em 2017, o filósofo conservador inglês instiga o leitor a refletir sobre os fundamentos ontológicos da existência humana questionando a concepção estritamente biológica e materialista do homem, especialmente quando temos de lidar cara a cara uns com os outros.

Percorrendo a história do pensamento ocidental em busca do que já se entendeu por natureza humana, indo de Platão a Darwin e Wittgenstein, Scruton traz ao debate a compreensão do ser humano como um ser intrinsecamente metafísico, já que manifesta uma vida moral. Não há dúvidas de que o homem possui uma natureza bastante complexa, afirma Scruton, mas em que consiste essa complexidade, e como compreender a existência individual e a existência coletiva do homem são alguns dos pontos que autor se propõe a refletir nesta obra.

Abaixo traduzimos apenas a introdução do capítulo três de On human nature que se dedica a refletir sobre a vida moral. Boa leitura!


“Sobre a natureza humana

(…)

Capitulo 3 – A vida moral

Pessoas são seres morais, consciências de certo e errado, que julgam seus companheiros e que são julgados de volta.  Elas também são indivíduos, e qualquer relato da vida moral deve começar a partir da aparente tensão que existe entre nossa natureza como indivíduos livres e nossa participação nas comunidades das quais nossa satisfação depende.

Às vezes se diz que o conceito de indivíduo livre é uma invenção recente, um subproduto de transformações culturais que podem não ter ocorrido e que, de fato, não ocorreram em todas as partes do mundo. Jacob Burckhardt argumentou o ponto no livro The Civilization of the Renaissance in Italy, que fundou a disciplina de historia da arte tal qual vem sendo ensinada em nossas universidades e que alimentou a teoria do Zeitgeist, herdada da filosofia da historia de Hegel. Há verdade na teoria de Burckhardt, que descreve  uma cultura na qual indivíduos estavam, talvez pela primeira vez na civilização cristã, definindo seus objetivos em termos de conquistas individuais em vez de sociais. Todavia, há também um elemento exagerado [na teoria].  Se o que escrevi nos primeiro dois capítulos for plausível, o hábito de auto definição como individuo é parte da condição humana em si mesma.

Sem dúvida, em certas circunstancias, as pessoas depositam maior ênfase naquilo que as distingue de seus vizinhos do que naquilo que têm em comum com eles; sem duvida a ideia de vida humana como narrativa singular, para ser entendida como um todo em si mesma, vem à tona em algumas épocas e não em outras; sem dúvida a arte de algumas culturas celebra indivíduos e sua maneira de ‘se destacar’ da comunidade, enquanto a arte de outras culturas olha para essa postura com indiferença ou hostilidade. Mas em todos os casos devemos distinguir ‘individualismo’ – a ênfase nos indivíduos como criadores de suas vidas e seus valores – da profunda individualidade  – uma condição metafísica que, enquanto pessoas, temos em comum, sejamos ou não também individualistas.” (p. 79/80).


Ficha da obra:

On human nature

Autor: Roger Scruton

Princeton University Press, 2017.