[Tradução] – Evitando o Mal, de John Kekes

O conservadorismo de John Kekes, como o próprio avisa, é apenas um dos conservadorismos possíveis. Em seu A Case for Conservatism, elege ao fim quatro principais princípios de todo conservador que se preze: pluralismo, ceticismo, tradicionalismo e pessimismo.

Comecemos do último, nesta presente tradução.

Focada na ética, a lente de Kekes vai de uma aproximação primeira com o Bem (capítulo 3) para o que o autor intitulará de Evitando o Mal (quarto capítulo). Aqui, o professor húngaro-americano traça com exuberante calma este segundo e essencial aspecto de uma moralidade política. Sua premissa: a prevalência do mal.

Século XX e suas tragédias à parte, basta um olhar à vida ordinária para notar que a vida é cheia de crueldade, hostilidade, ganância, inveja, ciúme, agressividade, egoísmo, covardia e desonestidade que são inquestionavelmente más, mesmo se afetam apenas poucas pessoas. O autor de Roots Of Evil (Raízes do Mal) elenca dois tipos de ações que causam o mal: as autônomas e as não-autônomas.

Do mal autonomamente gerado, seja pelo que ele chama de monstros morais, gente amoral ou ações incaracterísticas de gente decente, Kekes afirma expressamente se tratarem de casos raros. Do mal oriundo de ações não-autônomas, Kekes elabora um pouco mais. Ainda que difíceis de serem diagnosticadas na prática, sondagens psicológicas se fazem úteis para traçar o perfil de quem não persegue deliberadamente o mal como fim, mas ainda assim o causa.

Diz o pensador:

A falha da autonomia que resulta em maus julgamentos, contudo, é uma explanação muito mais promissora sobre como as pessoas chegam a causar um mal não autônomo. O mau julgamento ocorre porque os agentes falham ou no entendimento ou na avaliação sobre o significado de suas escolhas e ações. Como resultado, fazem o mal, mas não enxergam o que fazem como mau. Veem suas escolhas e ações sob outra descrição e seus erros de julgamento refletem suas falhas cognitivas, que podem ou não ter relações com fontes não-cognitivas mais profundas. Tais pessoas são cruéis, mas se enxergam como justas; são dogmáticas, mas se acreditam convictas em seus princípios; são gananciosas, mas a elas parece que são modestas; são preconceituosas, mas se pintam como objetivas em seus juízos contra vítimas miseráveis. São, portanto, não monstros, mas obtusas. Falham em ver o que veriam se a falta de julgamento não nublasse seus olhos. Tais falhas guiaram Hannah Arendt a falar sobre a banalidade do mal. Não há nada heroico ou romântico sobre os agentes da maioria das ações malvadas; elas não adotam a máxima do Satã de Milton: ó mal, sê tu meu bem. Elas, banalmente, confundem o mal pelo bem porque são moralmente deficientes.

É verdade que o mesmo Satã, quando ainda Lúcifer e em guerra contra as legiões de Miguel, provoca com a característica lábia: Não creais pôr termo / À guerra contra o mal como lhe chamas, / P’ra nós de glória, que é nossa tenção / Vencer, ou dar em troca ao Céu o Inferno / Com que sonhaste, e aqui se não reinar, / Habitar livres. A diferença, já ressaltada, é a deliberação autônoma que Satã e seus seguidores tomam, contraponto ao mal banal que um funcionário público como Adolf Eichman exerce, sem compreender o significado moral de suas ações – lembrando que, na prática, o campo é sempre demasiadamente nublado para julgar taxativamente motivações de fundo psicológico.

Fato é: o mal é causado, tanto por quem o procura quanto por quem pensa evitá-lo – principalmente, diz Kekes, pelo segundo tipo. Em diálogo com o famoso adágio de Sócrates (ninguém faz o mal voluntariamente), o capítulo expande a problemática, elegantemente respondendo que há, sim, uma motivação para o mal e que criticar o pai da filosofia – não como exercício de impiedade histórica, mas como identificação de um erro espalhado que transcende diferenças históricas, morais e políticas (…) erro que conservadores tipicamente não cometem, um erro que alia muitos oponentes contra o conservadorismo – serve à investigação de como se evitar o mal.

E o que o pessimismo tem a ver com tudo isso?

Kekes conclui seu capítulo discorrendo sobre A Fé do Iluminismo, crítica sucinta e mordaz que sintetiza e ridiculariza o progressismo vil e irresponsável de figuras como Rousseau e Kant. Repete-se, com a devida peculiaridade da prosa, o que homens do último século – Raymond Aron, e Michael Oakeshott, dentre tantos – traçaram como norte do conservadorismo político no que diz respeito à natureza do progressismo – iluminista, liberal, socialista ou marxista: seu alicerce é ignorar o Caim no homem.

Reimaginando diabolicamente a norma ética socrática e politizando-a, o progressismo subestima o predomínio do mal na natureza humana, seja em larga ou pequena escala. Desresponsabilizando o homem do cometimento do mal, responsabiliza o outro e bola, como solução, teorias de gabinete das mais escabrosas. O ponto é conhecido: desenha-se a doença (o mal nasce da opressão político-socioeconômica) para se vender maquiavelicamente a cura (utopias, revoluções e ideologias). A filosofia como investigação ética cai no sociologismo de bar (ou de FFLCH).

Escreve John Kekes, então, sobre o pessimismo, antídoto contra a falsa fé que a mentalidade moderna-iluminista engendra, antecipando o magnífico As Vantagens do Pessimismo de Sir Roger Scruton em uma década:

A busca por evitar o mal da moralidade política conservadora é apenas o resultado das implicações do quarto princípio básico do conservadorismo: pessimismo. Os três primeiros – ceticismo, pluralismo e tradicionalismo – foram mostrados, no capítulo precedente, para motivar a aproximação do bem feita pela moralidade política conservadora. De acordo com o pessimismo, evitar o mal é necessário e importante porque o mal prevalece, é um obstáculo para boas vidas e sua prevalência é o resultado da propensão de seres humanos o causarem. Uma boa sociedade não deve apenas louvar as possibilidades que fazem a vida ser boa, mas também devem impor limites que restringem o escopo do mal que resulta dos vícios das pessoas que que podem ou não ser amorais, malvadas ou monstros morais.

Pessimismo guia conservadores a olharem a propensão humana para causar o mal como um atributo permanente da vida moral. É uma marca intrínseca ao ser humano, embora, certamente, sua expressão é fortemente influenciada pelo arranjo político vigente. Tais arranjos podem fazer o mal mais ou menos prevalecente, mas nem mesmo os melhores arranjos podem desfazer a propensão para causar o mal. Se os limites estabelecidos pelos arranjos políticos são efetivos, o mal se mostrará mais em privado do que na vida pública, ou até de forma atenuada nas formas de arte vigentes, na competição comercial, nos esportes, nos tipos de entretenimento demandados e alimentados, ou ainda na demonização do povo de outras sociedades. A melhor esperança para evitar o mal, portanto, é achar maneiras relativamente mais suaves em que ele pode ser expressado.

Pessimismo, contudo, rejeita como rasa a esperança de que a sociedade será bem-sucedida em achar arranjos políticos que sublimarão o mal. Arranjos políticos são feitos e melhorados por homens cuja propensão para causar o mal é igualmente forte ou fraca em relação a quaisquer outros homens. Não há razão para supor que há “o melhor” arranjo político ou que, se houvesse, tal criação e implementação pudesse, alguma forma, escapar às inclinações malvadas dos homens em poder. Quaisquer arranjos que se faça estão presos à reflexão de tais inclinações, e desde que a propensão para fazer o mal é uma entre elas, todos os arranjos serão sempre imperfeitos. O alvo deve ser mitigar suas imperfeições o máximo possível nas circunstâncias históricas de cada sociedade.

O pessimismo dos conservadores não é um misantropo conselho do apocalipse. É o pessimismo realista que reconhece que as propensões humanas são variadas, que o mal é apenas uma delas e que o bem é outra. Estas propensões competem por dominância na arena da alma, alternando-se na vitória. O homem é motivado pelo bem, não só pelo mal. Se colocarmos em uma balança, é provável que arranjos políticos influenciem o resultado. Arranjos políticos, portanto, importam, mas não importam o suficiente e não são confiáveis o suficiente para esperarmos deles a perfectibilidade da condição humana. O pessimismo dos conservadores é o pessimismo de Sófocles, Tucídides, Maquiavel, Montaigne, Hobbes, Nietzsche, Stephen, Bradley, Santayana e T.S. Eliot. A condição humana não pode ser mudada; de qualquer modo, os esforços para fazê-la melhor valem a pena, mesmo que tais esforços sejam vulneráveis às vicissitudes da contingência tal como é a própria condição humana.

Anthonio Delbon