[Crítica] – Homo Deus: uma breve história do amanhã, de Yuval Harari

O tema relacionado aos impactos do avanço tecnológico e científico na vida ética e moral dos seres humanos é bastante recorrente em debates filosóficos da atualidade.

E para fomentar ainda mais esse debate nos deparamos com a obra Homo Deus: Uma breve historia do amanhã, de Yuval Noah Harari, também autor da aclamada obra Sapiens: Uma breve História da Humanidade, publicada em 2014.

Em Homo Deus a proposta é estabelecer uma nova agenda de reflexões que contemple temas que substituíram, nas últimas décadas, os antigos problemas da humanidade, como a fome, as pestes e a guerra.

A nova agenda sugerida por Harari deriva do fato de que o homem contemporâneo possui, ao contrário de seus antepassados, um único valor que supera em conteúdo e forma todos os demais: a vida humana.

Tendo o Humanismo, portanto, como pano de fundo de reflexão, as questões suscitadas em Homo Deus pretendem demonstrar como a tentativa de concretizar o sonho humanista – de permanência e imortalidade – pode levar à sua própria desintegração, expondo a fragilidade da crença segundo a qual o universo gira em torno do homem.

Nesta reflexão proporcionada por Harari, a atenção se volta para a seguinte questão, já apontada por John Gray em A busca pela imortalidade[1]: se por um lado a ciência tem se mostrado uma incrível e insubstituível ferramenta para solução de problemas, por outro ela traz consigo a peculiaridade de criar novos problemas, alguns até insolúveis; afinal se por um lado a tecnologia anuncia a possibilidade de imortalidade humana, por outro, não consegue alterar a natureza mortal, e portanto transitória, das instituições (incluindo-se aqui o conjunto de valores morais e éticos de um sociedade) como já fôra  denunciado por Nietzsche.

Depois de ultrapassar a primeira parte da obra dedicada a explicar como se deu a sobrevivencia do Homo sapiens no mundo, Harari aponta em que medida o humanismo funciona como a maior de todas as religiões no contexto de vida do homem moderno, aquele que abre mão de significado em busca de poder.

O vazio de significado decorrente do afastamento da crença religiosa e ampliado pelos esclarecimentos técnicos e científicos da modernidade é oportunamente preenchido pelo humanismo que, segundo Harari, “cultua a humanidade e espera que esta assuma na peça o papel que era de Deus…”[2].

Desse modo o autor procura demonstrar que da mesma forma em que não há evidências objetivas acerca da mancha original do pecado no homem, de um ponto de vista teológico, também não há evidências acerca da perfectibilidade humana.[3]

A tecnologia ocupa, assim, papel central na vida do homem contemporâneo. Ela define a abrangência e os limites de nossas visões religiosas, anunciando uma nova e radical mudança de paradigmas uma vez mais na história da humanidade, afirma Harari.

Assim como a revolução agrícola e a revolução industrial, a revolução tecnológica, da biotecnologia e dos algoritimos de computação vieram para ficar. Como ter essa certeza? Para o autor a certeza advém do fato da tecnologia prometer suprir alguns dos principais anseios do homem, como a busca pela imortalidade, pela felicidade e pela divindade num contexto de possibilidades e conforto nunca antes imaginado.

Nessa conquista, todavia, reside a semente da perdição desse mesmo humanismo, o que nos remete a uma irônica inversão do hino Patmos de Hölderling, segundo qual “onde há perigo cresce também a salvação.” Poema, aliás, que influenciou os ensaios sobre a técnica moderna de Martin Heidegger na segunda metade do século XX.

Vamos nos ater por um momento num dos valores centrais do liberalismo que pode estar em jogo com o avanço do conhecimento cientifico e biotecnologico: o livre-arbítrio enquanto um dado de realidade e não um juízo ético.

O que ocorre com a liberdade de decisão (enquanto um dado de realidade) se a biotecnologia com seus algoritimos matemáticos demonstrarem que as decisões que o homem toma são resultados de reações atômicas em cadeia ou mesmo a combinação de processos determinísticos e acidentes randômico?

É possivel que a propria idéia de liberdade e de escolha caia por terra com o avanço tecnológico e, com ela, o fundmento do humanismo liberal? Eis o cerne da questão posta à reflexão por Harari.

Quando a fantasia do livre-arbitrio e do individualismo se apagam – e para Harari se apagam em face dos avanços tecnico-cientificos que proporcionariam respostas tecnologicas aos questionamentos humanos mais profundos, substituindo em definitivo o papel da religião – o próprio humanismo entra em colapso, e o homem passa a buscar ardentemente uma nova forma de compreender e organizar o mundo, recriando significados para o sofrimento e as crenças de outrora[4].

No mundo futuro previsto por Harari, em que a tecnologia e a informação são sinônimos de poder, surge espaço para o que o autor denomina de ‘nova religião’ a substituir o humanismo liberal: o dataísmo.

O dataísmo não venera nem Deus e nem os homens, mas os dados de informação, sobre os quais residirá todo o significado último da vida humana.

Para Harari, num futuro não tão longínquo “não é de se admirar que nos ocupemos tanto em converter nossas experiencias em dados. Nao é uma questão de tendência ou moda. É uma questão de sobrevivência. Temos de provar a nós e ao sistema que ainda temos valor. E o valor reside nao em ter tido experiências, e sim em fazer delas um fluxo livre de dados.”[5].

Mas será que estamos preparados, como espécie, para lidar com essa abordagem estritamente funcional da vida?

Reside nesse ponto o maior perigo do dataísmo para o homem, segundo Harari: “[ele] ameaça fazer ao Homo sapiens o que o Homo sapiens fez a todos os outros animais”[6]: subjulgá-lo e minar ainda mais suas necessidades intersubjetivas.

As conclusões a que chega Harari nessa obra nos conduzem a um dos principais – senão o principal – dilemas da atualidade, e que advém de uma das maiores conquistas do homem contemporâneo: como lidar com o desmoronamento da crença em si mesmo? A revolução tecnológica talvez represente o último passo, e bastante sofisticado, na construção e no desmanche da idolatria de si.

Harari proporciona ao leitor, enfim, muito mais que um mero exercício de ficção ou uma pretensa releitura da obra de George Orwell, mas a possibilidade de reflexão profunda a respeito do papel do homem contemporâneo na atual sociedade de informações.

Remanesce, por fim, a última indagação da obra: o que seria de nós se algoritimos não conscientes, mas altamente inteligentes, nos conhecessem melhor do que nós mesmos?

Eliza Penna


[1] GRAY, J; A busca pela imortalidade – a obsessão humana em ludibriar a morte. Tradução José Gradel. 1ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2014. P. 192/193.

[2] HARARI, Y.N. Homo Deus: Uma breve história do amanhã. Tradução Paulo Geiger. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 228

[3] FAYE, E.  Philosophie et perfection de l’homme. Paris. J. Vrin, 1998. p. 25-30.

[4] HARARI, Y.N. Homo Deus: Uma breve história do amanhã. Tradução Paulo Geiger. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 305-308.

[5] Idem, p. 389.

[6] Idem, p. 397.