[Crítica] – A vida que você salva pode ser a sua, de Flannery O’Connor

Nem sempre é fácil lidar com a Graça.

Talvez você conheça Flannery O’Connor por Um Homem Bom é Difícil de Encontrar, carro-chefe de seu estilo gótico sulista. Brincadeiras à parte com ateus militantes e avós mesquinhas, em A vida que você salva pode ser a sua a autora traça um primoroso retrato do pêndulo entre insatisfação e paz de espírito. A bola da vez é Mr. Shiftlet*.

Mr. Shiftlet, aproximando-se em passos lentos da casa de uma velha e de sua filha, é descrito por O’Connor exatamente com tal ar de insatisfação apaziaguada, como se ele entendesse bem a vida. Plantando as sementes a brotarem ao final do conto, a escritora não esquece do cômico usual: Sua testa chapava-lhe metade do rosto, que terminava de repente, com os traços apoiados numa queixada forte, protuberante e ardilosa.

Conquistando a velha – e o leitor – Tom T. Shiftlet se mostra um homem resignado, apenas em busca de uma mulher direita, ordinária. O problema do mundo, dizia ele, é ninguém ligar para nada, ninguém parar para se dar algum trabalho.

Narrando a aproximação do misterioso homem como quem cozinha com esmero a refeição a ser servida, Flannery O’Connor, com pitadas do característico catolicismo encontrado em todos os seus contos, não aposta aqui tanto no grotesco de outros pontos para efetivar sua virada final. Ela vem aos poucos até que, subitamente, como a testa do protagonista, faz o conto terminar de repente.

Ao dar voz a Shiftlet a escritora dá voz, ao mesmo tempo, ao alvo da vez: o lugar comum do discurso do homem viril, do homem verdadeiro, a buscar responsabilidades nos consertos mais banais do cotidiano. É a mesma tática usada por O’Connor em Gente Boa da Roça, outro clássico da escritora, com a diferença de que a recusa da graça, aqui, vem da própria incapacidade do protagonista do conto – lá, o elemento demoníaco de Manley Pointer dá as caras.

Qual recusa da graça é evidente que não vou contar aqui. O que cabe elogiar é a descrição cirúrgica de uma autora que não se envergonha em colocar o elemento cristão como um raio em meio à atmosfera mundana do universo retratado. Seja com violência (Um Homem Bom é Difícil de Encontrar) seja com leveza amarga (aqui), Flannery aposta na ironia para carregar suas personagens de gradativo e surpreendente drama.

Em pouco mais de dez páginas, observa-se o desenrolar de um simples episódio simbólico, onde Shiftlet fala à humanidade do leitor de modo agudo. Como em contos memoráveis, as descrições lidas provocam o leitor a perceber que a própria autora acabou sendo levada pela sua criação: da comicidade descrita nos primeiros parágrafos às sublimes gotas fantásticas do último, é impossível terminar o conto sem sentir que sua própria vida foi salva, ainda que por breves minutos.


*O’Connor não brinca com os nomes escolhidos para suas personagens. Shift (mudança, mudar) e let (deixar, permitir) indicam, tal como a descrição física dada ao protagonista, seu destino nas páginas posteriores.

Anthonio Delbon