O HOMEM RADICALMENTE CORROMPIDO DE MATIAS AIRES

[NÔMADES BRASILEIROS]

Nascido na cidade de São Paulo, no ano de 1705, Matias Aires viveu em terras brasileiras durante seus primeiros onze anos de vida, em que aprendeu a ler e escrever com padres jesuítas. Seis anos após seu nascimento, Matias ganhava uma irmã mais nova, Teresa Margarida, que viria a se consagrar romancista de grande renome em terras portuguesas.

Foi em 1716 que a família de Matias Aires se mudou para Portugal movida pelo ímpeto paterno de ambição política junto à Corte Portuguesa. Lá, Matias deu vazão aos estudos filosóficos vindo a publicar seu único livro, Reflexões sobre a vaidade dos homens, uma coletânea de ensaios e aforismos repletos de ironia e rabugice – como sugere Alceu Amoroso Lima, na introdução feita à obra no ano de 1941 – centrados na percepção da vaidade como fundamento quase ontológico do homem.

Alceu Amoroso Lima afirma que Matias Aires retira o tom cético e pessimista de seus ensaios sobre a vaidade do autor de Leviatã, Hobbes, para quem “a origem do mundo não nos revela um espetáculo de paz, mas de luta.” (p. XXII), relegando a influência do texto bíblico a segundo plano.

Não se pode negar, contudo, a força da passagem que inaugura a obra de Aires: Vanitas vanitatum, et omnia vanitas (Eclesiastes. Cap. I, vers. 2). E como no livro bíblico as reflexões de Matias Aires sugerem uma errância deliberada a apontar para a vida que vaga rumo a lugar nenhum, tal qual observa Peter Kreeft em sua obra Três filosofias de vida:

“A vida corre atrás da própria cauda? Muito bem, esse livro fará o mesmo. O seu começo e o seu final são idênticos: ‘tudo é vaidade’.”[2]

O prólogo ao leitor escrito pelo próprio Matias Aires anuncia a lucidez que apenas um homem que se sabe condenado desde o berço é capaz de exprimir. Ali está plasmada uma espécie de modéstia irônica e sincera de um homem que, ao escrever sobre a vaidade humana, vê-se a si mesmo como um dos mais corrompidos por ela, exatamente por ter se tornado um escritor. A solução a esse dilema? O filósofo promete que não há de escrever outro livro! E ainda ressalta:

 “Escrevi essas vaidades, mais para instrução minha que para doutrina de outros, mais para distinguir as minhas paixões que para que os outros distingam as suas, por isso quis de alguma forma pintar as vaidades de cores lisonjeiras, e que a fizessem menos horríveis e sombrias, e por consequência menos fugitivas de minha lembrança e de meu conhecimento.”

A sensibilidade do espírito de Matias Aires está em perceber a fragilidade de uma existência que se sustenta no universo, se não por acaso, por pura misericórdia de um Deus que lhe é infinitamente superior.

Reflexões sobre a vaidade humana é uma obra que vale a pena ser lida não para que conste de repertórios no almoço de domingo, nem para munir-se de acusações contra os outros, mas como Matias mesmo sugere, para frear – com alguma sorte – esse ímpeto de vitrine que corrompe nossa humanidade.

Matias Aires entrega-nos um espelho; quem de nós terá a coragem de mirar a própria face?

Abaixo transcrevemos o excerto nº 49 da obra. Boa leitura!

Eliza Penna


[49.] Só a vaidade sabe dar existência às coisas que não têm, e nos faz idólatras de uns nadas, que não têm mais corpo que o que recebem do nosso modo de entender, e nos induz a buscarmos esses mesmos nadas, como meios de nos distinguir; sendo que nem Deus, nem a natureza nos distinguiu nunca. Na lei universal ninguém ficou isento da dor, nem da tristeza; todos nascem sujeitos ao mesmo principio, que é a vida, e ao mesmo fim, que é a morte; a todos compreende o efeito dos elementos; todos sentem o ardor do sol, e o rigor do frio; a fome a sede, o gosto e a pena, são comuns a tudo aquilo que respira: o Autor do mundo fez ao homem sobre uma mesma ideia uniforme, e igual, e na ordem com que dispôs a natureza não conheceu exceções, nem privilégios: nunca o homem pode ser mais, nem menos do que homem; e por mais que a vaidade lhe esteja sugerindo uns certos atributos, ou certas qualidades, que o fazem parecer maior, e mais considerável, que os mais homens, essas mesmas qualidades, ainda sendo verdadeiras, sempre são imaginárias; porque também há verdades fantásticas , e compostas somente de ilusões.”

[2] KREEFT, Peter. Três filosofias de vida. Trad. De Magno de Siqueira. São Paulo: Ed. Quadrante, 2015., p. 31.


Ficha técnica da obra:

Reflexões sobre a vaidade dos homens – ou discursos morais sobre os efeitos da vaidade oferecidos a el-rei nosso senhor D. José I

Autor: Matias Aires Ramos da Silva de Eça; Introdução de Alceu Amoroso Lima

São Paulo: Martins Fontes, 2004.