[Crítica] – NÉVOA, de Miguel de Unamuno

Há, entre criatura e criador, uma relação trágica de contingência,
que obriga a criatura a questionar sua morte
ao mesmo tempo em que existir torna-se
demasiado sufocante.

Em 1914, um ano após a publicação da obra Do sentimento trágico da vida, que entrou para cânone da literatura espanhola trágica de fundo metafísico, Miguel de Unamuno publica  Névoa, obra que inquieta por abordar questões de vida e morte de forma inesperada.

O título da obra, que em língua espanhola expressa um neologismo inexistente em português (nívola, que significa algo entre pequena novela e névoa), sugere não apenas a dificuldade de compreender a vida (e a morte) sob a lente nublada da razão humana, mas também revela o trabalho metalinguístico desenvolvido pelo autor em sua narrativa. Em Névoa, o narrador se revela ao protagonista e suscita, por meio de um curioso diálogo, a possibilidade de uma criatura indagar ao seu criador a respeito de como sua vida deve ou não deve acabar.

O enredo passa pelas agonias da paixão de Augusto por Eugênia e da impossibilidade de ficarem juntos, culminando na surpreendente decisão que toma Augusto de ir ao encontro do narrador (seu criador), em Salamanca. Desse encontro nasce a percepção de que há, entre criatura e criador, uma relação trágica de contingência que ao mesmo tempo em que obriga a criatura a questionar sua vida e sua morte, impõe sobre ela o peso de saber-se finito e insuficiente, traços sufocantes da existência que clamam por um fim.

A ideia de dialogar com o criador, ou seja, a ideia de conversar com Deus, é anterior ao antigo testamento e expressa o inconformismo do homem diante de sua contingente finitude. Nada, entretanto, pesa mais do que a resposta de Deus – ou dos deuses – às nossas indagações. E a bíblia está repleta de exemplos desse tipo; levou  Jó a enfrentar desgraças de todas as ordens, testou a fé de Abraão ao pedir o sacrifício de seu único filho Isaac, e deu o Cristo à humanidade para sacrifício. Frequentemente, contudo, a resposta divina à angustia humana é o silêncio. Silêncio que não livra o homem de enfrentar o destino que lhe foi traçado, seja por moiras cegas ou pelo Todo Onipotente.

O encontro criador-criatura, que é descrito na obra como uma espécie de transe em que se encontra Augusto, revela a ele que sua existência não se dá fora de seu criador – “mas te digo e repito que você não existe fora de mim…”. A petulância de tal revelação está no fato de que ela se apresenta a Augusto como a mais óbvia verdade: aquela que diz respeito à fragilidade de existir e ao inconformismo de saber seu fim. Não se pode fugir ao destino, e não se pode conformar-se com ele.

Como mortal, ou como mera ficção, Augusto enfrenta sozinho o abismo de saber-se incapaz de controlar seu destino final. As linhas que separam a verdade revelada, a imaginação e os sentimentos do protagonista são tênues, assim como as percepções de realidade e as verdades metafísicas que carrega a alma humana.

Também não escapou ao abismo da finitude o pequeno cão Orfeu, fiel amigo do protagonista, “quem mais profunda e sinceramente sentiu a morte de Augusto...”.

As últimas páginas dedicadas a Orfeu são um espetáculo a parte em Névoa, carregado de reflexões acerca da estranha existência do homem que “nunca está no que tem à sua frente”. Nada que o leitor de Graciliano Ramos já não tenha visto. Orfeu, assim como a cadela Baleia de Vidas Secas, passa por um processo de humanização inverso diante do sofrimento que seu dono enfrenta.

O homem é um animal doente, observa Orfeu, um animal hipócrita por excelência, conclui. Muito embora a fonte etimológica da palavra cinismo seja “cão”, Orfeu observa que cínico é o homem e não o animal.

Se por um lado há quem diga que o instinto de sobrevivência uniu a besta e o sapiens ao longo de sua jornada evolutiva sobre a terra, personagens como Orfeu estão aí para denunciar a força dos laços emocionais que se estabelecem entre o homem e as demais criaturas. Laços que marcam em definitivo o destino de ambos. Nessa relação, entretanto, talvez caiba à sorte decidir qual das partes se humaniza e qual delas se torna o animal.

Orfeu morreu de amor por Augusto. Em sua ignorância canina, desprovida de razão, foi o único capaz de sentir a dor da morte que sentiu seu amo. “- E ainda dirão que amor não mata!”.

Eliza Penna


Ficha técnica:

Título: Névoa

Autor: Miguel de Unamuno; Trad. Fabiano Calixto

São Paulo, Ed. Estação liberdade, 2012.