GOSTARIA MESMO ERA DE IR PARA O DESERTO – Ariano Suassuna

[NOMADES BRASILEIROS]

Paraibano, católico, nascido em 16 de junho de 1927, na cidade de Nossa Senhora das Neves (atualmente João Pessoa), Ariano Vilar Suassuna desperta a curiosidade não apenas pelos vídeos e palestras publicados na internet, cuja assinatura é a crítica irônica ao modo de vida do brasileiro contemporâneo, mas pelo cuidado que sempre dedicou à cultura brasileira.

Suassuna inaugurou sua produção literária através do teatro, consagrando-se autor de clássicos da dramaturgia brasileira que mesclam cultura popular e erudição barroca, a exemplo das peças O auto da compadecida (1955) – filmada no ano 2000 – A farsa da boa preguiça (1960), A pena e a lei (1959) e a A Caseira e a Catarina (1962).

De todas as atuações profissionais de Ariano, seja formado pela faculdade de Direito e Filosofia, professor da Universidade Federal de Pernambuco ou membro de secretarias de cultura, é por meio do teatro que Suassuna manifestou mais plenamente sua preocupação com a preservação das peculiaridades da cultura popular brasileira. No texto, na musicalidade, na forma de expressão de seus personagens e no cuidado na elaboração dos enredos, o teatro de Suassuna se aproxima do público em seu sentido mais singular, como a expressão da complexidade da vida mesma. Seu teatro é exemplo marcante do papel constituinte da palavra e do poder de representação humano a que se refere Ortega y Gasset em seu ensaio A ideia de teatro:

“A palavra tem no teatro uma função constituinte, mas muito determinada: quero dizer que é secundária à representação ou ao espetáculo. Teatro é por essência presença e potência de visão – espetáculo –, e enquanto público, somos antes de tudo espectadores (…). O Teatro, por conseguinte, mais que um gênero literário, é um gênero visionário ou espetacular.”[1]

Foi tomado pelo espírito de preservação do espetáculo da cultura popular brasileira e imbuído em criar uma literatura dramática de raízes ficadas na realidade, que Ariano Suassuna atuou como membro fundador do Conselho Federal de Cultura dando início, na década de setenta, ao Movimento Armorial cujo objetivo era desenvolver e conhecer as formas de expressão artística popular.

Assim, escolhemos homenagear esse nômade brasileiro falando um pouco mais sobre a obra Almanaque Armorial que, nas palavras do próprio Suassuna é uma “tentativa de resumo e explicação, precária, mas totalizante, da Vida”.

O Almanaque representa uma rica coletânea de ensaios do autor que revelam não apenas elementos que influenciaram a construção de suas peças e romances, mas a forma com que Ariano enxergava a cultura, suas manifestações artísticas e o destino para o qual caminha o povo brasileiro.

Como aponta Carlos Newton Junior na introdução da obra, o próprio nome almanaque remete aos almanaques sertanejos que Suassuna conheceu em sua juventude, em que conhecimentos populares eram transmitidos e organizados de forma “pretensamente científica”. E desde o título a ironia se revela.

Avesso a estrangeirismos, o tom de seus ensaios é de um humor sutil e crítica certeira, cujo riso entrega o desconforto. Arte e religião são os fundamentos que ora disfarçam, ora entregam a complexidade das ideias de um escritor cuidadoso e compreensivo, observador das misérias do povo brasileiro, nordestino e pobre, mas também testemunha da criatividade artística que nasce no deserto da brutalidade da vida diária, da angústia cotidiana e da esperança de um povo que tem fé; uma fé que faz suportar de cabeça erguida todo o sofrimento desta terra.

Transcrevemos abaixo um desses ensaios para homenagear esse ilustre nômade brasileiro. Boa leitura!

Eliza Penna


“Natal Selvagem

Tento fazer como todo mundo, alegrando-me e escrevendo sobre o Natal. E que as pessoas normais me perdoem: neste tempo só penso em encontrar uma furna solitária e áspera, para aí me refugiar longe de todos. No soneto que começa dizendo “Amor é um fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente”, Camões, pobre poeta envelhecido e exilado, diz que, para o amante, um dos piores tormentos “é, solitário, andar por entre a gente”. Pois é esse sentimento de exílio na multidão que o Natal e o Ano-Novo em mim agravam, a ponto de me levar à crispação do desespero.

O mal vem de longe, talvez pelo fato de viver, desde que nasci, exilado, impelido, por uma sentença estranha, a não ter pouso certo em lugar nenhum que eu sinta como sendo finalmente o meu. Por outro lado, temendo sempre que tais sentimentos se originassem em mim de uma atitude imperdoável de orgulho e desprezo, vivo sempre procurando me conformar aos padrões comuns, e abdicando sempre, com medo de ferir aqueles que me cercam, se revelasse muito claramente que gostaria mesmo era de ir para o deserto, para ver se aí a solidão me possibilitaria prescrever e esquecer.

Prescrever meus crimes, é certo. Mas esquecer o que? Não sei. Talvez os grilhões, o suborno, o exílio, a acomodação de todas as generosidades e rebeldias, a decadência, a secreta tristeza, o irremediável desespero. Bóiam neste momento em minha memória palavras de fogo, lidas há muito tempo: ‘um pássaro estranho nasce às vezes num ninho alheio de modo inexplicável – e seu destino é fatalmente maldefinido, incerto, duvidoso.’ Outro pássaro selvagem, que me feriu e queimou um dia – e que estou sentindo necessidade de reler agora, com a maior urgência em busca de socorro -, escreveu a respeito desse exílio entre os outros que os bichos do mato, como eu, experimentam no Natal: ‘Fui hoje a tarde até a cidade, e a multidão que perambula em todos os sentidos dá mostras de que o espírito natalino já começa a se fazer presente. Caminho por entre essa multidão e sua alegria exterior e ruidosa não me contagia. Há muito que perdi o interesse por qualquer tipo de comemoração ou de festejos religiosos.’ É, portanto, um animal de raça, um pássaro selvagem agrilhoado e solitário, sonhando com a liberdade. Mas desespero terrível, sabe que não tem saída, porque também escreveu: ‘Decidir não é fácil. É pular um muro alto, cheio de pregos pontudos e enferrujados… Quem, na hora de decidir, não se sente infeliz mesmo que do outro lado do muro se encontre a liberdade? Mas a liberdade é desconhecida e obscura; seus caminhos são inóspitos e cruéis.’

Releio essas palavras e, batido como sempre, opto por uma meia-solução: vou ao Horto de Dois Irmãos, quase deserto nesta época do ano, a fim de procurar a companhia de meus iguais, os pobres bichos sertanejos, enjaulados, com as plumagens e os pelos estragados, e também marcados, roídos e degradados pelo envelhecimento, pelas grades, pelas coleiras, pelo ambiente alheio, pelo exílio, pelo tempo. Fico ali muito tempo, sozinho, sonhando, impassível por fora, queimado por dentro, chorando as oportunidades perdidas, os sonhos destroçados, a vergonha das minhas deserções… Não, decididamente nem sei e nem devo escrever sobre o Natal. (1978)”.

Ficha Técnica da obra:

Almanaque Armorial  

Autor: Ariano Suassuna

Org. Carlos Newton Junior

Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 2008.


[1] A ideia do teatro. p. 35/36.