A correspondência entre Machado e Nabuco

[NÔMADES BRASILEIROS]

De tanto nomes que contribuíram para a formação da cultura brasileira, inaugurar esta sessão com Machado de Assis e Joaquim Nabuco pode soar um pouco clichê. A obra que escolhemos, entretanto, intitulada Correspondência, levou mais de sessenta anos para ter sua 3ª edição publicada, em 2003, e revela aspectos de afetividade e admiração entre o escritor e o político abolicionista que viveu a queda do reinado de D. Pedro II e o advento da república.

Trata-se de uma coletânea de 53 cartas trocadas entre Machado e Nabuco – às vezes em tom bastante formal, mas sempre afetuoso – como, por exemplo, numa das cartas em que Nabuco expressa seus pêsames pelo falecimento de D. Carolina, esposa de Machado de Assis que abaixo transcrevemos. Outra preocupação manifestada por Machado de Assis à Nabuco em algumas cartas é sobre o futuro da Academia Brasileira de Letras, que contava com poucos membros e cujas reuniões tornavam-se cada vez mais raras no final do século XIX.

As cartas foram reunidas inicialmente por Graça Aranha e publicadas pela primeira vez por Monteiro Lobato, em 1923. Esta terceira edição traz também uma pequena coletânea de fotos e imagens interessantes do acervo da Academia Brasileira de Letras, como a página do último livro de Machado de Assis, Memorial de Aires, finalizado pouco antes de sua morte e a fotografia autografada que Joaquim Nabuco tirou em Londres e enviou a Machado, em 1904.

Há, ainda, uma sequência de anexos que reúne artigos escritos por Émile Faguet e Vicenso Morelli sobre os pensamentos publicados de Joaquim Nabuco – Pensées Détachées – além do discurso proferido por Rui Barbosa por ocasião do falecimento de Machado de Assis.

É, sem dúvida alguma, uma obra que vale a pena ser lida, não apenas pelo peso literário desses nômades brasileiros, mas pelo valor histórico que esta peculiar coletânea carrega. Encontrar obras que se dedicam a explorar a relação de amizade (e às vezes inimizade) entre personagens de nossa cultura não é tão comum quanto se pode imaginar. Por tal motivo, escolhemos a obra Correspondência para fazer parte desta pequena homenagem a tão grandes personalidades.

Abaixo transcrevemos três cartas extraídas da obra, boa leitura!

Eliza Penna


“Nabuco a Machado

Londres, 17 de novembro de 1904.

Meu caro Machado,

Que lhe hei de dizer? Morrer antes de V. foi um ato de misericórdia que a Providencia dispensou a Dona Carolina. A viúva sempre sofre mais, às vezes tragicamente. No seu caso a imaginação, o interesse intelectual, o trabalho é um ambiente que permite em parte à dor a evaporação excessiva. A solução do dilema inevitável foi a melhor para ambos: coube a V. o sofrimento, V. compreenderá que o vácuo do coração precisa ser compensado pelo movimento e pela agitação do seu espírito. Será este o seu conforto e a maior divida da nossa língua para com o tumulo cuja sombra V. vai se acolher. Quanto sinto, meu caro amigo, não estar ao seu lado; está, porém, o Graça. Coitado. Que triste volta a dele: o seu luto e a moléstia do Veríssimo. Fico ansioso por noticias deste. O telégrafo anuncia-nos também mortes e ferimentos do Rio de Janeiro. Eu que julgava passada para a Republica a crise das convulsões!

Adeus, meu caro Machado,

Creia-me sempre muito sinceramente seu,

Joaquim Nabuco” (p. 125).

“Machado a Nabuco

Rio de Janeiro, 20 de novembro de 1904.

Tão longe, em outro meio, chegou-lhe a notícia da minha grande desgraça, e você expressou logo a simpatia por um telegrama. A única palavra com que lhe agradeci é a mesma que ora lhe mando, não sabendo outra que possa dizer  tudo que sinto e me acabrunha. Foi-se a melhor parte de minha vida, e aqui estou só no mundo. Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada. Éramos velhos, e eu contava morrer antes dela, o que seria um grande favor; primeiro porque não acharia ninguém que melhor me ajudasse a morrer; segundo porque ela deixa alguns parentes que a consolariam das saudades, e eu não tenho nenhum. Os meus são os amigos, e verdadeiramente são os melhores; mas a vida os dispersa, no espaço, nas preocupações do espírito e na própria carreira que a cada um cabe. Aqui me fico, por ora na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará. (…)” (p. 126/127).

“Nabuco a Graça Aranha

Washington, 29 de outubro de 1908.

“… Lá se foi nosso Machado! A vida nas condições em que ele vivia devia ser cruel, mas para a inteligência o existir compensa todos os sofrimentos, e isto tanto mais quanto mais alta ela é. Agora é que vemos a nossa pobreza. Eu sou muito contrário à ideia de estátua. A estátua para ser digna dele teria que ser uma grande obra. A melhor ideia, grande demais para nós, seria comprar a casa e conservar tudo tal qual. Essa é a maior prova de veneração da posteridade. Lembra-se da nossa visita à casa de Voltaire? O pensamento mais delicado desse gênero que eu saiba é o dos americanos, que em Cambridge  compraram o espaço defronte da casa de Longfellow, para conservar intacta a perspectiva que tinha o poeta. Quanto ao mais belo tumulo é para mim uma pedra entre flores, como a de Shelley, e à sombra de uma grande arvore. Podia-se até ter pássaros. Nós, porém, não temos meios para nada…” (p. 203).


Ficha técnica da obra:
Machado de Assis & Joaquim Nabuco – Correspondência
Org. Introd. e notas de Graça Aranha
Prefácio da 3ª edição José Murilo de Carvalho
Topbooks editora, Rio de Janeiro, 2003.