[Tradução] – The coddling of the american mind – Parte I

Apresentamos esta semana a primeira parte da tradução de trechos selecionados da obra norte-americana The Coddling of the american mind – how good intentions and bad ideas are setting up a generation for failure, dos autores Greg Lukianoff e Jonathan Haidt, publicada pela primeira vez em 2018.

O livro, ainda sem tradução oficial em português, tem conquistado estudiosos de diversas áreas pela forma com que trata a questão da infantilização da mentalidade americana no mundo contemporâneo, apoiando-se em investigação e pesquisa de dados usados para corroborar a tese de que o espírito americano enfraquecido cria campo para debates cada vez mais violentos, o aumento da intolerância e a incapacidade de lidar com problemas complexos próprios de uma sociedade.

A obra é dividida em quatro partes. Assim, dedicaremos quatro publicações às traduções de trechos selecionados do livro.

Sobre os autores:

Greg Lukianoff é presidente e CEO da Foundation for Individual Rights in Education (FIRE), advogado de formação e especialista em liberdade de expressão resguardado pela Primeira Emenda norte-americana no ensino superior. Também é autor de Unlearning Liberty: Campus Censorship and the End of American Debate  e Freedom from Speech.

Jonathan Haidt, por sua vez, é professor universitário na New York University’s Stern School of Business, PhD em psicologia social pela Universidade da Pensilvania tendo lecionado na Universidade de Virginia por dezesseis anos. Também é autor de The Righteous Mind e The Happiness Hypothesis.

Parte I – Três más ideias

Uma das principais premissas do livro e tema central desta primeira parte da obra é a de que jovens, cada vez mais despreparados para enfrentar as frustrações de uma vida adulta e naturalmente complexa, pautam suas escolhas sobre o alicerce frágil de três grandes mentiras: a primeira, “o que não te mata, te enfraquece. Portanto, evite a dor, evite o desconforto, evite todas as possíveis más experiências.” A segunda, “sempre confie em suas emoções. Nunca as questione.” E a terceira mentira, “a vida é uma batalha entre pessoas boas e pessoas más.”

Os trechos abaixo traduzidos foram retirados dos três capítulos que formam a primeira parte do livro. Boa leitura!

Tradução

“Capitulo 1 – A inverdade sobre a fragilidade: o que não te mata te torna mais fraco.

(…)

Antifragilidade

Ninguém fez um trabalho melhor ao explicar os danos causados quando se evita agentes de stress, riscos e pequenas doses de dor do que Nassim Nicholas Taleb, o estatístico libanês, stock trades e polímata que hoje tua como professor de engenharia de risco na Universidade de Nova York. Em seu best-seller de 2007, O Cisne Negro, Taleb argumentou que a maioria de nós pensa sobre o risco de uma forma equivocada. Em sistemas complexos, é virtualmente inevitável que problemas inesperados surjam, ainda assim, persistimos em tentar calculas o risco baseado em experiências passadas. A vida tem seus meios de criar eventos completamente inesperados – eventos que Taleb compara ao aparecimento de um cisne negro quando, baseado em experiências passadas, assumimos que todos os cisnes são brancos. (Taleb foi um dos poucos que predisse a crise financeira global de 2008, baseado no sistema de vulnerabilidade financeira para eventos “cisne negro”).

Em seu último livro Antifrágil, Taleb explica como sistemas e pessoas podem sobreviver ao inevitável cisne negro da vida e, como um sistema imunológico, tornar-se mais forte em resposta. Taleb nos pede para distinguir três tipos de coisas. Algumas, como xícaras de porcelana chinesa, são frágeis: elas se quebram facilmente e não podem curar-se a si mesmas, portanto deve-se manuseá-las gentilmente e afastá-las de crianças pequenas. Outras coisas são resilientes: podem suportar choques. Pais normalmente dão a seus filhos pequenos copos de plástico precisamente porque plástico pode sobreviver a repetidas quedas no chão, embora os copos não se beneficiem dessas quedas. Mas Taleb pede que olhemos além o uso corriqueiro da palavra “resiliência” e reconheçamos que algumas coisas são antifrágeis. Muitos sistemas importantes em nossa vida econômica e politica são como nosso sistema imunológico: eles necessitam de fatos estressores e desafios a fim de que possam aprender, adaptar e crescer. Sistemas antifrágeis tornam-se rígidos, fracos e ineficientes quando nada os desafia ou os incita a responder vigorosamente. Ele nota que músculos, ossos e crianças são antifrágeis (…).

A bobagem da superproteção é aparente assim que se entende o conceito de antifragilidade. Dado que riscos e fatores de estresse são naturais, inevitáveis partes da vida, pais e professores deveriam estar ajudando crianças a desenvolver suas habilidades inatas, a crescer e aprender a partir dessas experiências. Há um velho ditado; “prepare a criança para a estrada, não a estrada para a criança”. Mas atualmente parecemos estar fazendo exatamente o contrario: tentamos tirar da frente qualquer coisa que possa entristecer as crianças, sem perceber que fazendo isso repetimos o erro da alergia ao amendoim, se protegermos crianças de varias classes de experiências potencialmente entristecedoras, aumentamos a chance de que essas crianças se tornam incapazes de lidar com tais eventos ao saírem debaixo de nosso guarda-chuva protetor. A obsessão moderna de proteger os jovens de se sentirem em perigo é, acreditamos, uma das (muitas) causas do crescimento estatísticos da depressão adolescente, ansiedade e suicídio, a ser explorado no capitulo 7.” (p. 22/24 – tradução livre).

“Capitulo 2 – A inverdade do raciocínio emocional: sempre confie em seus sentimentos.

(…)

Aprender sobre distorções cognitivas é especialmente importante em um campus universitário. Imagine estar dando aula de seminário com vários estudantes habitualmente envolvidos com raciocínio emocional, generalização excessiva, pensamento dicotômico e classificação simplista. A tarefa do professor nessa situação é gentilmente corrigir tais distorções que interferem com o aprendizado – tanto para os estudantes envoltos a tais distorções quanto para outros estudantes na sala. Por exemplo,  se um aluno é ofendido por uma passagem de uma novela e faz uma generalização arrebatadora sobre os maus motivos dos autores que compartilham das mesmas características demográficas do autor ofensor, outros estudantes podem até discordar, mas tornam-se relutantes de o fazer em público. Neste caso, o professor pode perguntar uma serie de questões  encorajando o aluno ofendido a fundamentar suas asserções em evidencias textuais e considerar interpretações alternativas. Com o tempo, uma boa educação universitária deve melhorar  a habilidade de pensamento crítico de todos os seus alunos.

Não há uma definição universalmente aceita de “pensamento crítico”, mas muitos tratamento do conceito incluem comprometimento em conectar a reivindicação de alguém a uma evidencia confiável de forma apropriada (…) (Pensamento crítico também é necessário para reconhecer e derrotar ‘fake news’). Não é aceitável que um estudante diga “você me mostrou evidencias convincentes de que minha reivindicação está errada, mas ainda sinto que minha reivindicação está certa, então fico com ela.” Quando estudantes não podem refutar ou reconciliar evidencias em sentido contrário, devem abandonar suas reivindicações ou então perder o respeito de seus colegas.” (p. 39).

“Capítulo 3 – A inverdade do Nós versus Eles: a vida é uma batalha entre pessoas boas e pessoas más.

(…)

Dois tipos de identidade politica.

‘Identidade politica’ é um termo controverso, mas seu significado básico é simples. Jonathan Rauch, um estudioso da Brookings Institution, define o termo como “mobilização politica organizada ao redor de um grupo de características tais como raça, gênero, sexualidade, opositores ao partido, ideologia ou interesse pecuniário”. Ele nota que ‘na América, esse tipo de mobilização não é nova, incomum, antiamericana, ilegítima,  nefasta ou particularmente de esquerda’. Politica é sobre formação de grupos de coalização que visam atingir seus objetivos. Se criadores de gado, entusiastas do vinho ou libertários se reúnem para promover seus interesses é considerado politica norma, então mulheres, afrodescendentes ou homossexuais também fazem uma politica normal quando foram uma coalização.

Mas como a identidade é mobilizada faz uma enorme diferença – para as chances de sucessos do grupo, para o bem-estar das pessoas que se unem aos movimentos, e para todo o país. Identidade pode ser mobilizada de forma a enfatizar a abrangência de uma humanidade comum enquanto denuncia que alguns seres humanos tem seus direitos e sua dignidade negados porque pertencem a outro particular grupo, ou pode ser mobilizada de forma a ampliar nosso tribalismo ancestral e ligar as pessoas através de um ódio compartilhado em relação a outro grupo que serve como inimigo unificador comum.” (p. 59-60).

Traduzido por Eliza Penna