[Tradução] – HOKUSAI POR CIORAN

“Há na estrutura de cada grande cultura um toque dominante que a confere um caráter específico.

A sensibilidade e a atitude do homem são moldadas sob a impulsão de um fundo cultural original e os conteúdos são cristalizados em função deste toque dominante. Embora cada cultura tenha múltiplas virtualidades, ela atualiza e exprime com força unicamente aquelas que são próximas de seus valores específicos. Isso explica porque a cultura egípcia, que é uma cultura da morte, deu tanta profundidade ao senso de eternidade e de transcendência; porque a cultura grega, onde o culto à forma exalta a realização na imanência, manifestou com não menos profundidade uma tendência à cristalização e à individualização. Se cultivamos bastante a música na Alemanha, não é devido à inicial experiência pessimista do infinito? E a estranha perspectiva da individuação na arte japonesa não resulta do fato dela ter se desenvolvido em uma cultura da graça?

A obra de Hokusai não pode ser compreendida se esquecemos que a graça é uma característica essencial e dominante no Japão.

O salto espontâneo, gratuito e desinteressado pertence à natureza da graça. Ela coloca o homem e os objetos em um curioso estado de desprendimento, o suspende e o individualiza no ar. Este estado não é fruto de um processo de isolamento provocado por um tormento pessoal ou por um longo desespero; é destinado a manter uma harmonia dinâmica sobre o plano estético. Tudo que Hokusai criou dá a impressão que o mundo se ergue acima de seu plano normal e que flutua, sem que o dinamismo implícito sugira um problema torturante ou uma ruptura interior pois, na graça, a consciência não quebra as conexões que a prendem ao mundo orgânico e o espírito não chega à expansão centrífuga que o separaria da alma. A continuidade qualitativa e a fusão orgânica não conduzem, na arte japonesa, à rigidez e à fixação; elas conduzem à flexibilidade e à ondulação.

O que impressiona, em Hokusai, é a negação do peso: os homens e os objetos são emancipados da gravidade, parecem flutuar, ficam suspensos.

De fato, a graça emancipa da gravidade. Nós não falamos evidentemente da graça como toque imanente e constitutivo do mundo objetivo, o que enlaçaria o absurdo; queremos dizer que a visão do artista confere um caráter gracioso ao mundo objetivo. Se o retrato é muito pouco representado na arte japonesa, o motivo, dentre outros, é porque tal arte humaniza a natureza. Esta característica explica porque os japoneses experienciam a graça da natureza.

O fato de que, em Hokusai, as formas individuais sejam suspensas e não integradas na existência, não é devido às razões de ordem técnica ou formal, mas ao sentimento de vida próprio do japonês. E é negar o substrato profundo da arte (neste caso, pensando na pintura) afirmar que a natureza muito particular da pintura japonesa se explique pela sua derivação da caligrafia. A bem da verdade, toda estrutura artística específica tem por origem um sentimento de vida e uma visão primordial. Se Hokusai manifesta para o mundo animal uma compreensão bastante viva que lhe atribui um conteúdo humano, não é em razão de um sentimento de identidade orgânica, de uma participação íntima no ritmo universal? Por estar intimamente amarrada à existência, por liberar um charme ingênuo, por suscitar um arrebatamento estético, cada obra de Hokusai é uma nova revelação da unidade inicial, do Tao. A presença constante do sentimento de identidade determina uma estranha visão de individualidade, que se torna uma expressão anônima do curso universal da vida. O desprendimento e a suspensão não visam a interrupção do curso da vida, mas um doce balanço dá a ilusão de uma independência absoluta das formas particulares enquanto exprime na realidade a leveza e o voo da graça. É por isso que a arte japonesa, assim como a chinesa, pois ambas desenvolveram o sentimento de unanimidade e totalidade viva e concreta, demonstra incompreensão a respeito da unicidade da individualidade, como também da sua estrutura qualitativa interna.

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Na visão de Hokusai, o homem brilha por sua configuração exterior, pelo charme sensível da graça, pela espontaneidade dos movimentos.

Hokusai não procura revelar a infinidade de potencialidades íntimas; o que deve ser expresso pelo rosto humano é quase sempre expresso pela paisagem, cuja expressividade resulta do formidável dinamismo que atravessa toda a sua obra (ver, por exemplo O Poeta Abe no Nakamaro em exílio na China, olhando o reflexo da lua no mar). A vida lá é tão impetuosa e a energia interna da natureza tão transbordante que, com nossa aproximação europeia, cremos descobrir um dinamismo puramente sensível. Mas se tentarmos penetrar mais profundamente na sensibilidade nipônica, constataremos que a intimidade do charme exterior possui uma capacidade de revelação que não somos capazes de compreender integralmente; para os japoneses, o mistério de ser é anulado pela atualidade do substancial no sensível, atualidade que nós não podemos experimentar.

O extático e o grotesco, motivos tão frequentes em Hokusai, são produzidos pela imaginação exaltada de um homem pertencente à uma cultura ctônica. A embriaguez intoxicada de êxtase, durante a qual o homem mergulha freneticamente na torrente da existência, perturbado pela tensão de uma explosão universal e percebendo o paroxismo da intimidade, é seguida de uma expressão grotesca de linhas que negam seus puros contornos passando de ondulações para exagerações fantásticas. O grotesco resulta de uma perversão da graça, onde apagamos a feminilidade removendo sua leveza gratuita e seu charme desinteressado. A ausência do trágico, da grandeza e do monumental na obra de Hokusai acha sua explicação precisamente no caráter feminino da cultura japonesa, cultura da graça.”

(publicado por Emil Cioran em 13 de setembro de 1932, aos 22 anos, no jornal romeno Calendarul nº157. Incluído na coletânea francesa Solitude et Destin)

Tradução de Anthonio Delbon Jorge